União da Vitória é o único município do sul do Brasil que produz leite tipo A

Quarta-feira, 6 de junho de 2018

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Leite Macliv tipo A iniciou suas vendas no mês passado. Mas investimentos para chegar na qualidade adequada já somam três décadas

Por:Ana Cristina Bostelmam, publicado no portal www.vvale.com.br

O sol ainda não nasceu, mas a rotina de trabalho já começou na Fazenda 3 Gerações, em União da Vitória, sul do Paraná. Pouco depois das 4h da madrugada as vacas leiteiras já estão sendo encaminhadas para a ordenha. Apesar de mecânico, o processo é acompanhado de perto pelo proprietário da fazenda, Pedro Ivo Ilkiv, e por seu sócio, Cláudio Zeizer, que muito mais que conduzir o procedimento, carregam a responsabilidade de ser os únicos produtores de leite tipo A do sul do Brasil. Há pouco mais de 30 dias, mas com um histórico de mais de 30 anos de investimentos e estudos, a ‘3 Gerações’ é uma referência. Apesar do Paraná se destacar como o segundo maior produtor de leite do País, conforme a Pesquisa Pecuária Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em setembro de 2017, o município de União da Vitória é o único que oferece o leite tipo A. Saiba mais

Mas, enfim, qual é a diferença entre o leite tipo A e o que normalmente é consumido pela população que é o tipo C? “Quando você toma o leite tipo A, você está sentindo o sabor verdadeiro do leite, que deve puxar para um adocicado. Quando o leite não tem essa classificação, já não é tão saboroso”, explica Ilkiv. Segundo o produtor, três critérios fazem toda a diferença para que esse sabor seja um diferencial: higienização mais rigorosa, envasamento imediato do leite e animais com células somáticas baixas. Ainda, o cuidado com os animais e o conforto oferecido a eles influenciam no produto final apresentado.

Para entender melhor as diferenças entre os tipos de leites e os diferenciais do leite tipo A, um produto que está disponível apenas em União da Vitória, o Jornal O Comércio/Portal Vvale visitou a fazenda ‘3 Gerações’ e conheceu de perto a produção leiteira Tipo A.

Uma história construída com visão de futuro

A organização da fazenda, a beleza do seu entorno, o visível investimento em estrutura física e maquinários da Fazenda 3 Gerações é um indicativo de que nada foi construído do dia para a noite. Pedro Ivo conta que a fazenda era de seu avô, mas a vocação do leite veio quando seu pai estava à frente da fazenda, na década de 1970. Quando Ilkiv assumiu a administração do local, na década de 1980, iniciou o sonho de ser uma fazenda de processamento de leite. Mas ele sabia que para colocar em prática esse sonho seria preciso muito investimento, estudo e organização.

Nesse meio tempo, Ilkiv entrou na política. Foi prefeito de União da Vitória por duas vezes e também assumiu por oito anos uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná. “Eu sempre falava que quando eu saísse da política, eu iria industrializar o leite, pois para isso seria preciso muito mais dedicação à Fazenda. E esse dia chegou. Por isso, sempre investi em genética, maquinário, galpão, melhorando a infraestrutura. Sabia que era a longo prazo. Gosto de fazer isso, tenho curso de mestre queijeiro, uma parceria do governo da França com o governo do Paraná. Tenho um grande histórico de trabalho para chegar na realização do meu sonho”, conta. Em 2013, a fazenda foi premiada pela qualidade do leite. Cinco anos depois, aumenta ainda mais essa qualidade e a responsabilidade da entrega do produto.

Mas o futuro já está sendo pensado. Além de muito planejamento e objetivos bem definidos, não é raro ver o pequeno Pedrinho (filho de Pedro Ivo) entre as vacas da Fazenda. Quem sabe não demore muito para que, em breve, a fazenda tenha que mudar de nome, efetivando ‘4 Gerações’

Parâmetros legais sobre a produção do leite

O Ministério da Agricultura criou, em 2002, a Instrução Normativa 51 que regulamentou a produção, a qualidade, a identidade e o transporte do leite, com o objetivo de dar ao produto brasileiro um padrão de qualidade internacional. Essa instrução foi substituída pela de número 62, que entrou em vigor em 1°de janeiro de 2012, e aumentou os prazos e limites de Contagem Bacteriana Total (CBT) e Contagem de Células Somáticas (CCS) nos animais leiteiros, dando aos produtores de leite parâmetros mais adequados para a adaptação.

Essa instrução também especifica as classes do leite, sendo eles A, B e C (veja gráfico abaixo). Com base nessa normativa, os produtores fazem a adequação de seus produtos e se organizam no manejo do gado. Para indicar a qualidade do leite há também o Controle do Leite Oficial, que é uma amostra mensal coletada de cada animal produtivo e enviado ao órgão competente e legítimo, credenciado ao Ministério da Agricultura. No caso do Paraná, este órgão está em Curitiba. Lá os técnicos avaliam que tipo de leite cada animal produz. “Dos produtores da região só nossa fazenda tem esse controle. Com ele, dá para saber qual o teor de gordura e de sódio de cada vaca, o grau de proteína e de células somáticas. Isso é registrado em um histórico individual do animal, com os dados auditados e carimbados com o selo do Ministério da Agricultura e Associação Paranaense de Produtores de Leite. Com isso, atestamos a qualidade de nossos animais”, conta Ilkiv. Ele explica que no caso de venda do animal, quem compra tem a certeza de suas características.

O grande diferencial do leite tipo A

Segundo a instrução 62, o leite A tem que ser envasado em sala anexa onde as vacas são ordenhadas. Ele não pode sofrer transporte e nem ser misturado com o leite de outros produtores, que é o que acontece na produção do leite B e C. Com isso, é possível que se tenha uma rastreabilidade do leite, se saiba de onde ele que veio, sendo uma garantia de qualidade. O leite passa imediatamente, depois da ordenha, pelo processo de resfriamento (dois minutos depois de tirado ele já está com temperatura de 3 graus), é pasteurizado e empacotado ou engarrafado.  “Então é impossível fazer o leite A no sistema tradicional, onde um caminhão passa na casa do produtor recolhendo o leite e leva-o para a cooperativa para o envasamento. Ao misturar leite de várias propriedades, nem sempre os níveis de higienização dos produtores são iguais. Isso inclui esterilização das ordenhadeiras, investimento em equipamentos, capricho do produtor. Ao ser misturado, o leite se contamina e também passa pelas intempéries, e quando chega na cooperativa ele já está no limite de contagem de bactérias aceitáveis e das células somáticas, que são 150 mil por mililitro de leite”, esclarece Ilkiv.

Mas, o que são as células somáticas? Elas são a escamação das células que ocorrem em função de uma batalha contra uma infecção, por exemplo, feita pelo próprio sistema imunológico. “Assim como as células da pele escamam, por dentro também escamam. Quanto mais alto o número de células somáticas, quanto maior a escamação, é mais indício que esse animal pode ter uma infecção no sistema mamário”, detalha Ilkiv. Uma infecção como essa pode comprometer a qualidade do leite.

São as células somáticas e números de bactérias que diferenciam a qualidade do leite tipo A. “O padrão europeu é em torno de 400 mil células somáticas por mililitro de leite para o tipo C. Aqui na fazenda, estamos com animais que tem células somáticas abaixo de 80”, conta orgulhoso. Segundo ele, não existe número de célula somática zero, pois todo animal tem o processo normal de renovação das células. “Porém, 80 significa saúde plena do sistema mamário dos nossos animais.”

Ele esclarece que o leite A só é possível porque ele está sendo envazado em sala anexa a ordenha, com circuito interno fechado, com um sistema de ordenha mecanizado, não havendo contato manual, onde o leite sai da vaca, passa por uma tubulação de inox, é resfriado e pasteurizado. “Isso garante um leite de excelente qualidade com máxima higienização, sendo que há a ausência de qualquer contaminação.”

A nutricionista Mauren Savi Salvador, reforça que os leites de tipo A, B ou C, de maneira geral, apresentam os mesmos nutrientes e quantidade de calorias, sendo considerados diferentes apenas pelo tipo de ordenha e pasteurização que passaram. “Vale lembrar que a concentração de nutrientes do leite varia muito do tipo de animal, da qualidade de sua alimentação e também a estação do ano em que a ordenha foi feita. Por isso, é muito importante conhecer a qualidade do produtor. Esta é uma boa maneira de garantir que está levando para sua casa um bom leite”, detalha a nutricionista.

A produção do tipo A na fazenda gira em torno de 1,5 mil a 2 mil litros diários. Ainda, cerca de mil litros são enviados diariamente para a cooperativa que vai, junto com o leite de outros produtores, resultar no leite tipo C.

Conheça os tipos de leite

Tipo A

É pasteurizado e homogeneizado em uma usina de beneficiamento próprio, onde não há contato manual e nem com o ambiente. Tem a menor concentração de microrganismos por mL.

Tipo B

As fazendas que o produzem tem menos recursos que as que produzem o leite tipo A, porém também tem vacas de raças leiteiras, com ordenha mecânica e é resfriado após a ordenha. Porém, seu beneficiamento é feito fora da fazenda, sendo transportado por caminhões o que aumenta o volume de microrganismos por mL.

Tipo C

Esse tipo de leite não passa pelo processo de refrigeração depois de ser coletado e a ordenha é feito tanto manualmente como com ordenhadeiras. O leite não tem origem, isto é, é uma mistura de leites de vários produtores. É transportado em caminhões para uma indústria ou cooperativa que irá fazer seu envasamento. O leite tipo C tem a maior concentração de microrganismos por mL de bebida

Longa Vida

O diferencial é sua embalagem e a sua esterilização a altas temperaturas. O leite utilizado é geralmente o Tipo C. O processo de esterilização assola as vitaminas e lactobacilos que fazem bem à saúde humana.

Cuidado e conforto dos animais

Para se garantir qualidade na produção do leite é preciso também garantir o conforto para os animais que o produzem. Na ‘3 Gerações’, há um balanceamento nutricional adequado aos animais, onde o nutricionista faz um cardápio mensal para cada vaca, conforme a sua produção. “Se o animal produz mais, o valor energético e proteico do seu bolo alimentar é maior. Além desse tratamento diferenciado a cada um, temos valorizado uma dieta que proporcione um animal auto imune, uma inovação”, destaca. Ilkiv conta que ao fornecer uma dieta mais alcalina para o animal, é possível combater com mais facilidade as enfermidades que por ventura possam os atacar. Na fazenda, todas as vacas leiteiras são tratadas com suplemento de magnésio e selênio orgânicos e não minerais, como em outras criações. Além disso, todos os animais se alimentam de uma planta que é considerada medicinal. Ela retira do solo o magnésio e cálcio, fornecendo-os aos animais, deixando eles mais resistente a doenças. “A alimentação é balanceada, composta por milho, soja, cevada, aveia alfafa (planta alcalina). Também é fornecido sais minerais e alguns condimentos que fazem com que o animal salive mais, melhorando seu bolo alimentar, como a pimenta e a canela. Além disso, as vacas lambem o sal do himalaia (que tem 84 minerais e elementos que são encontrados no corpo humano) sal de pedra, com muito mais mineral que o sal comum”.

Mas o tratamento diferenciado aos animais não para na alimentação. Como a holandesa é uma raça oriunda de um clima frio, na linha do cocho, onde elas se alimentam, um chuveirinho faz com que as vacas fiquem refrescadas quando a temperatura passa de 22 graus. Junto a isso, ventiladores levam o calor para longe delas. “Com isso, evitamos o estresse calórico dos animais”, explica.

As camas, local onde elas ficam quando não estão sendo ordenhadas, estão sempre secas e limpas. Esse cuidado faz a prevenção de doenças como mastite e mamite, que prejudicam diretamente as glândulas mamárias da vaca.

O cuidado e o investimento genético também são diferenciais na Fazenda. Atento às novidades internacionais da área, o produtor conta que no Canadá, por exemplo, os pesquisadores chegaram a um touro reprodutor que tem um grau de imunidade maior. Então, naturalmente, tem tendências a combater doenças por imunidade do próprio corpo. “É um avanço na parte da genética e é uma coisa muito nova que nós estamos investindo.”  Entra então, nesse quesito, a seleção genética para que a produtividade seja cada vez maior e com mais qualidade. A preocupação em registrar e auditar as vacas se torna cada vez mais relevante. Ilkiv explica que vários itens são observados na hora de se adquirir um animal. Se a mãe (matriz) tem tendência a ter mamites, infecção mamária, que se falando na produção do leite é um dos principais problemas, as gerações seguintes dela também tendem a ter. Já quando a mãe tem a resistência, seus descendentes também terão essa resistência, provando que é uma questão da bagagem genética.  “Esse cuidado nos acasalamentos faz com que a gente gaste menos nos tratamentos dando mais qualidade ao leite, de uma forma preventiva”, explica.

Uma empresa sustentável

Dentro da Fazenda 3 Gerações, os cuidados com o meio ambiente vão além do respeito com os animais. Toda a propriedade tem tratamento de dejetos, como poucas no Paraná. A parte líquida do cocho e o que não é compostado nas camas, vai para tratamento em uma lagoa, toda impermeabilizada, onde o líquido não penetra no solo. Depois disso, há um separador de sólidos, que sai como uma serragem, e o líquido vai para uma câmara de fermentação. Depois de um longo processo, sai sem cheiro e não polui mais. Ao contrário, já sai um adubo, indo diretamente para a irrigação do solo. “É um tratamento bem moderno e bem eficaz, e como vai para adubo, gastamos menos em adubo químico. Nossa plantação no entorno, que é de pastagem, é mantida com a fertirrigação”, explica Ilkiv.

Já as camas que vão compostando (transformando a matéria orgânica em adubo) ao longo do tempo, passam por um processo químico natural. Uma camada de serragem (resíduos das madeireiras), em contato com a urina e as fezes dos animais, acaba fazendo a combustão, a fermentação e se transforma em húmus (matéria orgânica depositada no solo), que depois de um ou dois anos é recolhido e colocado na agricultura. “Há uma poluição zero em função da nossa atividade e fechamos um ciclo importante de eco renovação”, orgulha-se.

Quem trabalha com gado de leite e quer comprar o animal, não vai vê-lo pessoalmente, e sim vai ver o seu registro. Nesse documento é anotado o nome da mãe, pai, além do nome do criador e o selo de garantia. Nele, tem o histórico do animal, com a classificação, a morfologia (sistema de casco, garupa, lombo), se ele tem características que proporcionam saúde, a quantidade de produção de leite, a qualidade desse leite, quem são os avôs e avós maternos e paternos e também os bisavôs. A árvore genealógica mostra a qualidade familiar na produção do leite. Esses dados que são importantes na hora de vender um animal. “Eu já estou fazendo isso há muitos anos, o que me dá a certeza da qualidade da minha produção”, enfatiza Ilkiv.

Única produtora do leite tipo A

No Sul do Brasil, atualmente a Fazenda 3 Gerações é a única produtora do leite tipo A. As fazendas produtoras desse tipo de leite mais próximas estão em São Paulo e são apenas em 14. Porém, ao comentar em expansão de mercado, Ilkiv fala com cautela, pois sabe que se for para expandir, tem que aumentar o número de animais, pensar na alimentação e bem estar deles, itens que são extremamente bem planejados na fazenda. “Eu continuo sendo um bom produtor para a cooperativa, mando em torno de 1000 litros de leite todos os dias para eles. Ainda, tenho uma margem que varia de 1500 a 2 mil litros de leite para nós processarmos por dia”, explica.

Mas o produtor conta que dois produtos do leite também levam a marca da empresa:  o queijo minas frescal e o queijo coalho para assar. “Esses dois produtos já estão no mercado e, conforme forem os resultados, já está em nosso planejamento expandir nessa área.”

Leite de garrafa: uma ação para o meio ambiente

Pedro Ivo e Claudio Zeizer, seu sócio, apresentam o leite tipo A nas duas versões para venda. “É realmente um leite fresco, direto da fazenda”

Lembra antigamente que o leite vinha em pequenas garrafas reutilizáveis? O Leite Macliv resgatou essa ideia e lançou o leite em garrafa, além do tradicional pacote de plástico. A proposta foi justamente por um apelo ambiental. “Fizemos um estudo de como seria a reciclagem da garrafa e vimos que estaríamos beneficiando, e muito, o meio ambiente, diminuindo o volume de embalagens plásticas. A garrafa não contamina o produto e ainda não produz lixo. Afinal, o plástico leva mais de 400 anos para decompor no aterro sanitário”, calcula o produtor.

Para dar esse presente ao meio ambiente, foi investido em maquinário onde as garrafas são higienizadas, passando por quatro processos intensos de lavagem, garantindo a limpeza 100%. Apenas as tampinhas sempre são novas e descartáveis. “Mesmo assim, a tampinha é reciclável. A ideia é que as pessoas não levem todo dia um pacotinho plástico, que vai abarrotar o aterro sanitário, que custa muito caro aos cofres públicos. A garrafa traz uma qualidade melhor para o leite, em função de ser o vidro, e ainda preserva o meio ambiente”, enfatiza.

Mas e o preço? Será que o consumidor final vai sentir uma diferença muito grande em relação ao valor, comparando garrafa e plástico? “Não. A diferença é de apenas 50 centavos. Tem o custo da primeira garrafa, que é de R$1,54. Depois, a diferença a mais por litro é mínima”, revela. Segundo Pedro Ivo, o leite do tipo A teria que ser vendido 30% mais caro do que o leite C. Porém, a parceria da fazenda com o supermercado Macliv, que fica no distrito de São Cristóvão, também em União da Vitória, faz com que o processo de entrega seja menor, diminuindo o preço de logística. “Nós tiramos o intermediário do meio. É uma marca do mercado. É do produtor direto para a gôndola do mercado.  O leite que ordenhamos às 4h da manhã, 8h já está na área de venda do mercado. É realmente um leite fresco, direto da fazenda”, conta.

 

 


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